segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O QUE É AUTISMO - TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA? (PRIMEIRA PARTE)




Segundo revisões da história do conceito de autismo, a primeira pesquisadora a descrever crianças com características de autismo foi a psiquiatra soviética Grunya E. Sucharewa, em 1926; porém, ela chamou os quadros destas crianças de "psicopatia esquizoide". O termo "autismo" já tinha sido mencionado, em 1911, pelo psiquiatra suíço E. Bleuler, mas noutro contexto - para descrever o mundo isolado e ensimesmado em que viviam os portadores de esquizofrenia. Porém, a história do conceito como o conhecemos hoje se inicia com L. Kanner, que publicou, em 1943, os casos de 11 crianças. A seguir, um breve resumo, porém é aconselhável ler o artigo original, onde aparecem muito mais detalhes.

Caso 1: examinado inicialmente aos 5 anos de idade, tinha história de seletividade alimentar, restrição de perguntas a alguns assuntos específicos (e formulação das perguntas numa única palavra), facilidade em decorar o alfabeto, nomes e faces e mesmo textos inteiros. Indiferença em relação aos pais e parentes. Desinteresse por coisas que normalmente despertam entusiasmo nas crianças como, por exemplo, alguém vestido de Papai Noel. Não demonstrava afeto quando acarinhado, não prestava atenção se alguém entrava ou saía, não demonstrava alegria em ver os pais ou um amiguinho e nem tomava a iniciativa para brincar com alguém. Parecia mais feliz quando estava sozinho e raramente ia até alguém que o chamasse. Aos dois anos, muito interessado em brinquedos com blocos de girar, frigideiras e outros objetos redondos. Adquiriu o hábito de balançar a cabeça de um lado para o outro e parecia estar sempre pensativo. Repetição das mesmas palavras, frases, disposição de objetos. Entendimento apenas literal dos mandos. Dificuldades no uso correto no uso de pronomes pessoais.

Caso 2: Inicialmente examinado aos 6 anos, tinha histórico de ser autossuficiente, não participar de jogos interativos, muito medo de objetos mecânicos; no começo da vida não se interessava por ninguém, depois passou a aceitar um pouco melhor a presença de pessoas, mas no geral as percebia como interferência em suas atividades. Aprendeu muitas canções já aos dois e meio anos de idade. Dificuldade em pedir as coisas e dificuldade em não recebê-las quando as quer. Dificuldades no uso correto de pronomes pessoais. Quando mãe ía pegá-lo em seus braços, nunca assumia postura de expectativa. Ou evitava outras crianças ou se metia no meio delas de forma agressiva.

Caso 3. Inicialmente, foi considerado surdo, por não falar ou responder perguntas. Levado para internação, concluíram que provavelmente ouvia, porque obedecia a ordens simples", como "sente-se" ou "deite-se". Parecia inteligente, demonstrando curiosidade relacionada aos instrumentos usados para examiná-lo. Mas, não prestava atenção a conversas ao seu redor e fazia ruídos, mas não falava palavras inteligíveis. Pela descrição da mãe, chegou a imitar os sons da fala mas, depois, parou. No consultório do psiquiatra, brincava com os brinquedos, mas não prestava atenção às pessoas, no recinto. Emitia ruídos ininteligíveis. Num retorno, aos 4 anos e 11 meses de idade, ficou persistentemente ligando e desligando as luzes. Não dizia à mãe, se queria algo, mas se mostrava furioso, até que ela adivinhasse o que desejava.

Caso 4. Foi levado à clínica aos 5 anos de idade, para avaliação psicométrica, pois se achava que tinha deficiência intelectual - havia estado num jardim de infância particular, onde sua fala incoerente, incapacidade de adaptar-se e acessos de raiva levaram a esta suspeita. Aos 3 anos, havia decorado 37 canções. No primeiro ano de vida apresentava muitos vômitos, o que levou a várias trocas nas fórmulas com que o alimentavam. Estava sempre ocupado com algo, com vivacidade, mas quando se falava com ele, continuava em sua atividade. Kanner observa que não parecia desobediente, porém extremamente distante. Parecia muito satisfeito com suas atividades, a não ser que alguém interferisse persistentemente com o que estava fazendo. Neste caso, primeiro tentava se desviar da pessoa e, se não conseguissem tinha acessos de raiva. Manuseava adequadamente vários objetos e passou também a falar frases soltas, com um bom vocabulário, mas que não aparentavam que pretendesse comunicar-se. Repetia frases ditas por outras pessoas e decorava trechos com muita facilidade. Falava de si sempre na segunda pessoa. Comportava-se como se as pessoas não existissem e nunca olhava para suas faces. Frequentemente andava em círculos, masturbava-se com frequência e apresentava vários comportamentos repetitivos.

Caso 5.  Foi levada à clínica aos 8 anos e 4 meses. Apresentava vocabulário normal aos 2 anos de idade, mas sempre com dificuldades para com as palavras estruturar sentenças; soletrava, escrevia e lia bem, porém mantinha a dificuldade de expressão oral. Hábitos rígidos e repetidos, repetia frases, usava repetidamente determinados objetos. Falava de si na segunda pessoa e se referia à mãe com "eu", Desatenta ao ponto de parecer que não ouvia. No exame psiquiátrico não mostrava nenhuma vontade de interagir nem contato afetivo. Picada com uma agulha, disse "machuca", mas a palavra não era dirigida a ninguém.  Brincava com a própria mão como se fosse um brinquedo. Sua manipulação de objetos era repetitiva. Seus desenhos, estereotipados e sem imaginação. Interrompia conversas dos outros com palavras ou frases estereotipadas.

Caso 6. Foi levada à clínica aos 11 anos de idade. Morava numa instituição para deficientes intelectuais desde os 5 anos de idade, mas se percebeu que não tinha deficiência intelectual. Não prestava atenção no que lhe falavam, mas parecia entender tudo o que esperavam dela. Não interagia com as pessoas, mas se cuidava, montava quebra-cabeças, nos quais persistia obsessivamente até completar a figura (o que conseguia, mesma que  as peças de dois quebra-cabeças diferentes fossem misturadas). Testada, apresentou um Q.I. de 94.  Respondia as perguntas sem olhar para a pessoa, olhando para o  vazio. Quando as crianças se juntaram em torno do piano, ela pareceu não perceber; não prestava atenção à música, mergulhada em seu mundo à parte. Quando as crianças se retiraram, pareceu não perceber e nem mudou de posição.

Caso 7. Foi encaminhado à clínica aos 3 anos e 2 meses. Sua mãe o descrevia como sempre lento e quieto.  Achou-se, por um tempo, que fosse surdo, porque não apresentava nenhuma mudança de expressão quando se falava com ele e nem tentava falar. Aceitava líquidos somente num recipiente todo de vidro e, na clínica, chegou a ficar 3 dias sem aceitar líquidos, porque foram oferecidos num recipiente metálico. Tinha muitos medos, incluindo água corrente e queimadores de gás. Incomodava-se com quaisquer mudanças, ficando temperamental e chegando a chorar. Gostava de puxar persianas para cima e para baixo, abrir e fechar portas, rasgar caixas de papelão em pequenos pedaços e ficar horas se divertindo com eles. Entrou no consultório sem olhar para as pessoas e  logo se dirigiu a um tabuleiro de Seguin, colocando as formas em seus lugares, corretamente. Quando se retirou o tabuleiro, ficou perturbado, imediatamente percebendo sua ausência mas, quando o colocaram de volta, não se importou mais com ele. Quando se aquietou, ficou pulando, com uma expressão extática. Não respondia, quando chamado ou quando se dirigia uma palavra a ele. Nunca sorria. Por vezes emitia sons desarticulados, cantarolando. Frequentemente levava objetos aos lábios.

Caso 8. Levado à clínica aos 3 1/2 anos, a mãe descrevia que, gradualmente, desenvolveu interesses rígidos e só se dedicava a eles. falava deles. Se não pudesse ter acesso a eles, mostrava-se inquieto. Também demonstrava um interesse muito maior por objetos. Demorou para falar, nunca fazia perguntas com a entonação característica, repetia muito frases - dificilmente falava uma sentença uma única vez, chegando a fazer 50 repetições. Só raramente fala de suas experiências. Gosta de brincar sozinho, montando coisas como, por exemplo, montando um carrinho com caixas. Não gostava que alguém se aproximasse. Punha várias coisas na boca e chegaram a ser encontrados pedregulhos em suas fezes e, uma vez, aspirou algodão, requerendo traqueotomia. Entrando no consultório, logo viu um trem de brinquedo, pegou-o e ficou conectando e desconectando repetidamente os vagões, dizendo "mais trem, mais trem, mais trem". Também repetidamente contava as janelas dos vagões, em voz alta. Levado a uma sala sem trens para fazer o teste de Binet, foi difícil convencê-lo a fazer e, quando o completou, pareceu ao psiquiatra que o fez de maneira a se livrar o mais rápido possível. Seu QI foi de 142. Numa descrição enviada pela mãe quando tinha cinco anos, foi descrito como "lobo solitário", permanecendo sozinho para brincar e só se dirigindo a um adulto quando queria ouvir uma história. Lia histórias simples para si mesmo. Tinha muitos medos de ferimentos e se assustava muito se alguém, por acidente, lhe cobrisse o rosto. Foi levado novamente ao psiquiatra aos 11 anos e, durante a entrevista, manteve-se muito sério, porém com bastante pressão do discurso, perguntando obsessivamente sobre janelas, sombras, quartos escuros. Por vezes, respondia às perguntas em forma de barganha: "Você responde uma pergunta minha e eu respondo uma pergunta sua." As definições que dava das coisas eram sempre descrições muito específicas como, por exemplo, üm balão é feito de borracha e contém ar e às vezes contém gás e às vezes pode subir no ar e às vezes podem ser segurados; quando se faz um furo neles, estouram e se as pessoas os apertam, estouram. Está certo?"

Caso 9. Levado à clínica com 4 e meio anos, tinha um histórico de, com um ano e meio de idade, conseguir distinguir 17 sinfonias. Passou a interessar-se também pela manipulação repetitiva de objetos, como, por exemplo, rodopiar cilindros ou refletir a luz em vários espelhos. Parecia sempre distanciado das pessoas à sua volta, falava de si na segunda pessoa. Quando alguém jogou no chão um almanaque que estava lendo e pisou em cima, ele tentou remover o pé da pessoa como se fosse um objeto e não parte de uma pessoa. Nas conversas, somente reproduzia o que havia escutado, jamais emitia algo que fosse originalmente seu. Quando num grupo de pessoas, não olha para elas. Na escola se mantém sempre afastado das outras crianças. Se houvesse uma atividade musical, postava-se na frente de todos e começava a cantar. Nunca inicia uma conversação. Quando entrou no consultório do psiquiatra, não olhou para ninguém que estava lá. Tudo o que fazia era muito repetitivo.

Caso 10.  Avaliado aos 2 anos e 4 meses de idade. Rolava de um lado para o outro, antes de adormecer. Se não sabem o que quer, fica berrando. Entrando no consultório, ficou andando de um lado para o outro, sem rumo. Não estabelecia nenhum contato entre dois objetos, a não ser quando era para rabiscar. Não respondia à maioria dos comandos simples. Ao final do quarto ano de vida, seu vocabulário melhorou muito. Seu contato afetivo era pouco e somente com poucas pessoas. Usava o pronome da segunda pessoa para referir-se a si mesmo. Sempre empurrava para o lado o primeiro pedaço de seus alimentos. Sua rotina tinha de ser rígida, qualquer mudança o deixava em pânico. Possuía um vocabulário excelente, mas só repetia as sentenças ditas por outros, não produzindo nada original. Tinha excelente memória e conhecia de cor rezas em várias línguas e poemas. Aos quatro anos e meio, passou a usar os pronomes mais adequadamente. Precisava de um ambiente muito estável e, nas avaliações, conseguia isto mantendo porta e janela fechadas. Se sua mãe abria, primeiramente ele logo as fechava e, se abrisse de novo, irrompia em lágrimas. Ficava muito incomodado se visse algo incompleto. Uma boneca de duas estava sem chapéu e ele o ficou procurando pela sala inteira. Quando trouxeram e colocaram nela o chapéu, imediatamente perdeu o interesse por ela. Aos cinco anos e meio, passou a ter um bom domínio dos pronomes.

Caso 11. Levada à clínica aos 7 anos e 4 meses de idade, tinha história de não conseguir lidar com abstrações: não entendi as brincadeiras das outras crianças, não queria ouvir histórias, ficava andando e falando sozinha. Gostava muito de animais e, por vezes, os imitava. Com 1 ano de idade, falava 4 palavras, mas não houve progresso posterior da fala e chegaram a achar que fosse surda. Por causa de suas dificuldades, também se pensou numa deficiência intelectual porém, os médicos que a viam, achavam que sua expressão facial era de uma pessoa inteligente. Aprendeu a falar aos 5 anos, mas suas frases não se relacionavam à situação do momento ou se relacionavam a ela de uma forma metafórica. Seu comportamento também era diferente do das outras crianças: quando elas estavam sendo ensinadas a cuidar de flores, bebeu a água e comeu as plantas. Tinha um vocabulário muito rico, aprendendo especialmente bem as classificações dos animais. Não usava os pronomes corretamente, mas era correta nos tempos e nos plurais. Dificuldades para entender o significado de números. Muito medo de barulho, tinha tanto medo do aspirador de pós que se afastava até do quarto onde ste ficava guardado. Se fosse ligado, tampava as orelhas com as mãos e corria para a garagem. Examinada por uma psicóloga aos 7 anos, mantinha uma relação distante e, mesmo quando restringida fisicamente, afastava o objeto ou a parte do corpo que a restringia, mas em nenhum momento pedia para que a soltassem ou pedia alguma ajuda. Seu discurso continuava se restringindo a repetir frases, raramente emitindo algo original. Decorava o nome das crianças com quem convivia, mas não se relacionava com elas. Levada para o playground, demonstrou medo e correu para seu quarto. Conseguia ficar longos períodos brincando sozinha com blocos de montar, desenhar ou ficar olhando gravuras.

ALGUNS DOS COMENTÁRIOS RELEVANTES DE KANNER SOBRE SEUS CASOS

A característica mais evidente, fundamental e característica do transtorno seria uma incapacidade das crianças, desde o início de suas vidas, de se relacionarem do modo habitual com pessoas e situações.

Esta dificuldade de interação com pessoas se caracteriza por dificuldades graves na comunicação,  incluindo severas limitações da linguagem (que podem, lentamente, melhorar, com a passagem do tempo) e a necessidade de uma regularidade ininterrupta no ambiente, de modo que uma série de estímulos externos (sons ou interferência nas atividades) são vivenciados com extremo desconforto e, como consequência, segundo Kanner, na criança predominariam comportamentos e exigências repetitivos.

Kanner comenta da semelhança com algumas características da esquizofrenia, porém acrescenta que, ao contrário desta, que sempre se inicia após um período de desenvolvimento normal, o desenvolvimento é anormal desde o início, sendo algumas características perceptíveis, eventualmente, já com poucos meses de idade - por exemplo, a ausência de reação normal, quando a mãe vai pegar a criança em seus braços. 

Kanner tece alguns comentários sobre o nível superior de inteligência prevalente nas famílias e uma falta de "calor" humano. Mas, ao contrário de autores mais tardios (desmentidos, posteriormente), atribui a um distúrbio inato a origem última do quadro de autismo.

Assim, Kanner estabeleceu as bases teóricas e diagnósticas do que hoje se denomina transtorno do espectro autista.

Referências bibliográficas

Associação Psiquiátrica Americana. (2022). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (5ª ed., texto revisado), 2022  Apud Instituto Inclusão Brasil https://institutoinclusaobrasil.com.br/dsm-5-tr-e-cid-11-diagnostico-de-transtorno-do-espectro-autista/ 

Autism Aspergers Advocacy Australia     Autism Spectrum Disorder (ASD) in the DSM-5-TR  https://a4.org.au/dsm5-asd, acessado em 23/02/2025

Bleuler E  (1911) Dementia praecox oder Gruppe der Schizophrenien; Leipzig, Wien: Franz Deuticke (Handbuch der Psychiatrie, hg. von G. Aschaffenburg, B: Spezieller Teil, 4. Abteilung, 1. Hälfte). 

Kanner L   Autistic Disturbances of Affective Contact.   Nervous Child: Journal of Psychopathology, Psychotherapy, Mental Hygiene, and Guidance of the Child 2 (1943): 217–50. 

Pozzi CM, Riesgo R d S, Assumpção Jr F A   Revisiting the history of autism before Kanner and Asperger: a tribute to Grunya Sukhareva  Arq Neuropsiquiatr.  2024 Aug;82(8):1-3. doi: 10.1055/s-0044-1788269. Epub 2024 Aug 8.

Sucharewa G E (1926) Die schizoiden Psychopathien im Kindesalter 

http://www.th-hoffmann.eu/archiv/sucharewa/sucharewa.1926.pdf , consultado em 25/08/2025


Imagem: Autistic Mind  https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Autistic_Mind_5.png#file


terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

DOUTOR, EU SOU AUTISTA?



De modo muito resumido, o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) se baseia em dois critérios, segundo a Associação Psiquiátrica Americana: 

1) Déficits persistentes na comunicação social (deficiências na reciprocidade social-emocional, deficiências em comportamentos comunicativos não verbais usados na interação social e déficits no desenvolvimento, manutenção e compreensão dos relacionamentos) 

2) padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (movimentos, uso de objetos ou fala estereotipada ou repetitiva, insistência em mesmice, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal e não verbal; interesses altamente restritos ou fixados, de intensidade ou foco anormal; hiperreatividade ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente). 

Se lermos com atenção, veremos que vários comportamentos diferentes podem ser encaixados nestas definições. Por este motivo, recebemos no consultório pessoas que nos procuram para saber se são autistas porque, por exemplo, têm dificuldades em iniciar ou manter relacionamentos ou têm algum hábito rígido ou interesse incomum. Entretanto, tais características podem ter muitas origens: por exemplo, dificuldades em iniciar relacionamentos frequentemente são devidos a um transtorno de ansiedade chamado de "fobia social", que se assemelha a uma timidez excessiva, um medo de "fazer feio", de ser avaliado ou julgado e achado ridículo e que impede ou muito dificulta a pessoa se aproximar de alguém;  hábitos rígidos podem fazer parte de uma personalidade obsessiva (pessoas que não toleram ou toleram com muita dificuldade mudanças em hábitos ou mudanças no contexto em que vivem ); interesses incomuns, por outro lado, podem inclusive ser normais, fazer parte dos hábitos de pessoas que são popularmente chamadas de "excêntricas", mas sem que esta excentricidade lhes traga algum prejuízo.

Uma vez, recebi uma pessoa que achava que poderia ser autista e se descrevia como "sem senso de humor" e desinteressada por relacionamentos. Conversando, com calma e pedindo exemplos, ficou claro que ela não ria de piadas que fossem pouco inteligentes (o que revelava um senso de humor mais refinado e não uma falta dele) e como era muito mais culta e inteligente que a maioria das pessoas que encontrava, sentia um certo desprezo por elas e, por isto, não fazia questão de cumprimentá-las ou saber como estavam - esta característica pode até não ser muito simpática, mas certamente não é o tipo de desinteresse que algumas pessoas com TEA apresentam.

Por este motivo, as pessoas devem evitar o autodiagnóstico e, em caso de dúvidas, devem procurar um profissional habilitado - geralmente psiquiatras - para fazer o diagnóstico. Outro aspecto importante é que, ao contrário do que muitas pessoas (e alguns profissionais) pensam, na imensa maioria dos casos, não há necessidade de testes psicológicos ou "neuropsicológicos" para se fazer o diagnóstico, sendo suficiente uma entrevista psiquiátrica cuidadosa, utilizando as informações fornecidas pelo(a) paciente e (principalmente em crianças), pelos familiares ou, mais raramente, de seus professores. No caso de crianças muito pequenas ou de crianças que tenham dificuldades de se expressar em palavras, vídeos registrando comportamentos que a família ache incomuns também podem complementar a consulta psiquiátrica.


Referência bibliográfica

American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.). https://doi.org/10.1176/appi.books.9780890425787

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Menina com TEA


sábado, 8 de fevereiro de 2025

PSICOTERAPIA OU REMÉDIOS, O QUE É MELHOR?





A Associação Psicológica Americana define psicoterapia como “qualquer serviço psicológico prestado por um profissional treinado que utiliza principalmente formas de comunicação e interação para avaliar, diagnosticar e tratar reações emocionais, formas de pensar e padrões de comportamento disfuncionais”.1

O que seriam estas “reações emocionais, formas de pensar e padrões de comportamento disfuncionais”? São reações que trazem sofrimento ou levam a outros prejuízos na vida da pessoa. Por exemplo, o luto relacionado à perda de um ente querido traz sofrimento. Por outro lado, se uma pessoa abusa de bebidas alcoólicas, pode até não apresentar sofrimento (pelo menos, num primeiro momento, contanto que não seja impedida de beber), porém as consequências do uso podem levar a problemas de saúde, profissionais e familiares. Portanto, este comportamento é disfuncional, apesar de não levar, necessariamente, a um sofrimento imediato. Um a pessoa que esteja num episódio maníaco, sentindo-se superpoderosa e ultrarrica, com a sexualidade exacerbada e gastando dinheiro de modo incompatível com suas reais condições financeiras, também pode não estar sofrendo, porém seus comportamentos, juntamente com sua incapacidade de perceber o quanto está alterada, traz consequências que lhe trarão, futuramente, sofrimento.

No primeiro exemplo acima, da pessoa em luto, o atendimento psicoterápico pode ajudar a pessoa num processo de aceitação progressiva e reconstrução da sua vida e relacionamentos, saindo de um sofrimento muitas vezes paralisante. No caso da pessoa que tem um transtorno de uso de álcool, também, uma psicoterapia com professional com conhecimento especializado nessa área pode ajudá-la a compreender melhor os fatores e contextos correlacionados ao seu uso disfuncional e, assim, aos poucos, aprender a controlar-se2 de modo mais eficaz. Finalmente, no terceiro exemplo, a psicoterapia não costuma ser muito útil, enquanto o(a) paciente estiver em crise, pois as alterações do funcionamento cerebral são tão profundas, num caso desses, que impedem que as técnicas psicoterápicas levem a alterações suficientemente abrangentes e duradouras.

No que se refere ao tratamento medicamentoso, numa situação de luto por perda de um ente querido, geralmente não há indicação de uso de medicação, pois se trata de uma reação normal, apesar de, em algumas pessoas, poder ser mais prolongada e profunda que em outras. No segundo exemplo, do transtorno de uso de álcool, além da psicoterapia, existem pelo menos três medicações que podem diminuir os riscos de recaída (acamprosato, dissulfiram e naltrexona) e, portanto, a associação de medicamentos com a psicoterapia é recomendada. No último exemplo, o caso do episódio maníaco, ele deve obrigatoriamente ser tratado com medicação, pois os medicamentos podem ajudar a diminuir a intensidade dos sintomas já a partir do início do uso e, com o uso continuado, podem diminuir a duração da crise e, finalmente, prevenir recaídas.

POR QUE ESTAS DIFERENÇAS?

O cérebro pode apresentar problemas de funcionamento detectáveis por métodos laboratoriais e de imagens e, nestes casos, o tratamento geralmente fica a cargo dos neurologistas. Porém, há alterações de seu funcionamento mais sutis, que não podem ser vistos através de metodologia laboratorial convencional, mas que levam a alterações de pensamentos, emoções e da interação com o ambiente. Este tipo de alterações, geralmente, fica a cargo dos psiquiatras. Dentro do grupo destes transtornos, alguns têm características mais biológicas (como o transtorno bipolar) e outros têm características mais de aprendizados disfuncionais ou seja, a história de vida e de interações da pessoa fez com que ela tivesse comportamentos (e emoções e pensamentos) que a fazem sofrer – em outras palavras, a pessoa não está conseguindo lidar com certas situações difíceis e isto lhe traz um intenso sofrimento (como no exemplo do luto, acima). Finalmente, alguns transtornos têm claros components biológicos (por exemplo, em algumas famílias pode haver uma predisposição genética para o abuso de álcool), mas têm também aspectos comportamentais muito relevantes (por exemplo, mesmo em famílias nas quais haja uma propensão genética para o abuso de álcool, nem todas as pessoas terão o transtorno). É neste casos que se indica tanto um tratamento medicamentoso, visando à compensação da predisposição biológica quanto psicoterápica para ajudar a pessoa a compreender seu próprio funcionamento e, com isto, aprender novos comportamentos que lhe possibilitem enfrentar seu transtorno.

Desta forma, respondendo a pergunta inicial, não se pode dizer que a psicoterapia seja melhor que os remédios ou estes sejam melhores que a psicoterapia: a decisão vai depender do diagnóstico de cada pessoa e, na maioria dos casos, ambos devem ser usados para se ter os melhores resultados.

 

Referências bibliográficas

American Psychological Association (2023). Psychotherapy. In APA dictionary of psychology  https://dictionary.apa.org/psychotherapy , acessado em 28/06/2024


Imagem: Mental health  https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mental-health 2313428_640.png (acessado em 08/01/2025)

 

Notas

1. Traduzido pelo autor.

2. No caso, trata-se de controlar seu comportamento, o que não significa tentar beber de forma controlada, pois em muitos casos o objetivo do tratamento é que a pessoa consiga se abaster, dado que nos casos mais graves a probabilidade de conseguir beber controladamente é minima e, paradoxalmente, mais difícil de atingir que a abstinência.

domingo, 13 de agosto de 2023

ASPERGER E O AUTISMO


Em seu livro Crianças de Asperger (1), a historiadora Edith Sheffer defende a tese de que classificar como autistas crianças cuja principal dificuldade reside em suas deficiências de comunicação social se insere no contexto ideológico do nazismo.

Em 1943, o psiquiatra estadunidense Kanner (2) publicou um artigo que, pela primeira vez, conceituava o autismo como um transtorno específico. Antes dele, outros autores como, por exemplo, em 1926, a psiquiatra soviética G. E. Sucharewa (3) já haviam publicado casos semelhantes, mas até Kanner o autismo era considerado apenas um sintoma. As crianças descritas por Kanner tinham, além das deficiências de comunicação social, graus diversos de deficiência intelectual. Em 1944, o psiquiatra austríaco Asperger, trabalhando na Viena nazista, publicou também um artigo (4) (provavelmente sem ter conhecimento do artigo de Kanner), no qual descrevia casos semelhantes àqueles do psiquiatra americano, porém que não apresentavam, necessariamente, deficiências intelectuais: ao contrário, poderiam ter desempenho intelectual até acima da média. O que caracterizava as crianças de Asperger, eram suas dificuldades de comunicação (e inserção) social. Asperger considerava que seus autistas tinham uma deficiência de Gemüt, uma palavra alemã com diversos significados mas que, no caso delas, se referia a uma incapacidade emocional de se encaixarem devidamente na sociedade "enquanto organismo". Esta ideia da sociedade como um organismo biológico era essencial na ideologia nazista (5), segundo a qual indivíduos e raças inferiores representariam tumores dentro deste organismo, que deveriam ser extirpados. No entanto, Asperger expressa na sua publicação que crianças autistas poderiam ser educadas com base em suas capacidades intelectuais e, com isto, tornarem-se socialmente úteis. Esta avaliação positiva era essencial para salvar a vida delas, numa época em que crianças consideradas não educáveis frequentemente poderiam ser assassinadas em locais como o complexo psiquiátrico Steinhof, na clínica Spiegelgrund, para onde Asperger também encaminhava pacientes. E hoje em dia se acredita que seria impossível Asperger não saber que no Pavilhão 15 de Steinhof (foto acima), crianças eram mortas com injeções ou deixadas para morrerem de doenças que contraíam ao serem propositalmente subnutridas e presas ao leito. Além do fato de a Associação Psiquiátrica Americana ter eliminado nomenclaturas diversas para designar formas distintas de autismo, englobando-as com o nome de Transtornos do Espectro Autista (6), a participação (mesmo que indireta) de Asperger no programa de eutanásia nazista constitui um dos motivos pelos quais se desaconselha, atualmente, o uso de "síndrome de Asperger" para denominar o transtorno de pessoas com dificuldades de comunicação social, porém sem deficiência intelectual - considera-se que uma pessoa envolvida no assassinato de crianças não deve ser homenageada.

Referências

1. Sheffer E (2019) Crianças de Asperger - as origens do autismo na Viena Nazista, acessado em 13/08/2023

2. Kanner L (1943)  Autistic disturbances of affective contact, acessado em 13/08/2023

3. Sucharewa G E (1926) Die schizoiden Psychopathien im Kindesalter, acessado em 13/08/2023

4. Asperger H (1944) Die "autistischen Psychopathen" im Kindesalter, acessado em 13/08/2023

5. Bialas W (2014)  Moralische Ordnungen des Nationalsozialismus, acessado em 13/08/2023

6. Associação Psiquiátrica Americana (2023) Associação Psiquiátrica Americana (APA) Manual diagnóstico e estatístico DSM-5-TR, acessado em 13/08/2023


Imagem: Steinhof, Pavillion 15

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

SEUS PENSAMENTOS INCOMODAM E VOCÊ NÃO CONSEGUE SE LIVRAR DELES?


 


Em PSIQUIATRIA, as pessoas frequentemente se queixam de pensamentos incômodos ou negativos que "não querem" sair de suas cabeças. Pesquisa publicada na década de 90 pediu a pessoas que imaginassem um URSO BRANCO e, em seguida, deveriam pensar em qualquer coisa, MENOS no urso branco. Porém, cada vez que aparecesse o URSO BRANCO na cabeça delas, deveriam levantar um dedo. A maioria das pessoas, mesmo tentando pensar em tudo menos no URSO BRANCO, algumas vezes levantou um dedo. Terminado o exercício, o URSO BRANCO aparecia ainda mais vezes do que durante o exercício. Tentar rejeitar pensamentos frequentemente não funciona e pode até aumentar a frequência deles. Se os pensamentos forem emocionalmente carregados, como na depressão e no TOC, a dificuldade pode ser ainda maior. Pensamentos negativos tendem a trazer emoções negativas. E emoções negativas tendem a trazer pensamentos negativos, num círculo vicioso. Assim, foram desenvolvidas técnicas de psicoterapia que enfraquecem os pensamentos negativos SEM tentar eliminá-los da mente. Um destes conjuntos de técnicas é a ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso). Através de metáforas, exercícios de mindfulness e o comprometimento com os verdadeiros valores de cada pessoa, é possível aliviar sintomas de depressão, ansiedade, pânico, fobias e TOC, entre outros.


 Imagem: U3176522, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons

domingo, 9 de janeiro de 2022

REMÉDIOS OU PSICOTERAPIA, QUAL FUNCIONA MELHOR?


Há muitas evidências de que episódios de depressão (não bipolar) de grau leve a moderado e vários transtornos de ansiedade, o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e o transtorno de pânico podem melhorar muito com alguns tipos de psicoterapia, como a cognitivo-comportamental, a ativsação comportamental e a ACT (terapia de aceitação e compromisso). Tanto quanto com remédios. Isto porque estes transtornos decorrem tanto de uma predisposição biológica do cérebro quanto de padrões disfuncionais de pensamento e comportamento. Nas psicoterapias, a pessoa aprende a lidar com situações, emoções e pensamentos de modo a reduzir o estresse e o sofrimento. As medicações, por sua vez, atuam diretamente no funcionamento dos neurônios, compensando a predisposição biológica. Assim, em alguns casos, após avaliação psiquiátrica, é válido que se use somente psicoterapia e, em outros, compensa mais usar medicações. Na prática, grande parte dos pacientes acaba se beneficiando quando ambos os tratamentos são instituídos. 

Ilustração: By U3065856 - Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=29372162

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

EFEITOS COLATERAIS DE MEDICAÇÕES PSIQUIÁTRICAS


É muito frequente que as pessoas se queixem de algum sintoma, quando tomam uma medicação. Algumas das queixas são claramente efeito colateral da medicação que usam. Outros, são duvidosos e alguns sintomas NÃO SÃO dos remédios. Explicação: cada remédio tem um mecanismo de ação, no organismo e, assim, os benefícios e efeitos colaterais que pode causar são bastante bem definidos. Por exemplo, remédios como o escitalopram (fórmula estrutural na ilustração) podem frequentemente causar dificuldade de orgasmo, porém é mais raro que causem tremores e, certamente, não levam a desmaios. Isto é só um exemplo. A importância disto é porque as pessoas tendem a achar que, quando têm algum sintoma E estão tomando um remédio, necessariamente o que sentem é causado pelo remédio. E, muitas vezes, isto leva a interrupções do tratamento. Assim, quando sentir algo e achar que é do remédio que está tomando, pergunte ao seu/sua médico(a), antes de parar o remédio. Ele(a) certamente saberá esclarecer e orientar você quanto à melhor conduta. Por sinal, a maior parte dos efeitos colaterais é desagradável, mas NÃO perigosa e grande parte deles melhora ou desaparece em poucas semanas, após o início do uso ou aumento da dosagem.