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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

O QUE É PSIQUIATRIA TRANSDIAGNÓSTICA?



O diagnóstico psiquiátrico convencional, atualmente, baseia-se principalmente em critérios, que aparecem nas últimas edições do Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Psiquiátrica Americana (DSM, em sua quinta versão revisada, atualmente) e no Código Internacional de Doenças (OMS, em sua décima-primeira edição, atualmente). Estas categorias diagnósticas teriam vários aspectos positivos, tais como uma linguagem comum entre os pesquisadores e uma classificação que permite dar diagnósticos aps pacientes, tirando de sobre eles julgamentos sociais do tipo "doença mental é fraqueza". No entanto, segundo alguns autores, esta categorização também pode ser a causa de uma estagnação dos resultados em psiquiatria, há alguns anos. Estes autores, partindo do principio de que as atuais categorias não correspondem a mecanismos causais específicos (uma única categoria pode abranger vários supostos mecanismos causais, enquanto que várias categorias apresentam pontos em comum, quando se investiga as causas e mecanismos de diversos transtornos), propõem uma nova forma de pesquisar em Psiquiatria, os RDoC (abreviação para Research Domain Criteria). A proposta tem como objetivo investigar a origem dos sintomas psiquiátricos, utilizando como ponto de partida o que já se sabe deles, em termos de psicofisiologia, genética e o contexto no qual os sintomas se desenvolveram, dado que os transtornos psiquiátricos provêm de uma combinação destes fatores. (internos e externos) 

Ao contrário do que ocorre com as categorias tradicionais, nas quais os sintomas estão "presentes" ou "ausentes",  sendo no máximo classificados como "leves", "moderados" ou "graves", na população eles são melhor descritos como se distribuindo ao longo de uma linha contínua. A categorização levaria, segundo os proponentes do RDoC, a uma perda da riqueza diagnóstica, além do que algumas pessoas não se encaixam em nenhuma das categorias. Também, existe uma enorme presença de comorbidades, que é a ocorrência de mais de um diagnóstico na mesma pessoa - esta presença tão frequente poderia advir de a categorização ser um processo artificial e não ser devido a uma real distinção entre diversos sintomas. (N.A.: por exemplo, por este raciocínio, a presença simultânea de um episódio depressivo maior e de um transtorno de ansiedade generalizada poderia não ser devida a duas causas - uma para a depressão e outra para a ansiedade - mas, sim um único mecanismo seria responsável por uma simultaneidade de sintomas ansiosos e depressivos). Por outro lado, como os diagnósticos são feitos através do preenchimento de um número mínimo de critérios, mas para cada diagnóstico existem vários critérios possíveis, pode ocorrer que diagnósticos iguais tenham mecanismos causais diferentes. por exemplo, no diagnóstico da depressão, uma grande heterogeneidade caracteriza os vários sistemas diagnósticos desenvolvidos no século passado, de modo que é possível que algumas listas de critérios sejam abrangentes demais e outras, demasiadamente restritivas. Outro problema apontado é a alta frequência com que, ao longo da vida, os indivíduos mudam de diagnóstico, o que pode ser consequência da confiança excessiva em diagnósticos transversais, capturando apenas um instantâneo do quadro e não as oscilações, aparecimento e desaparecimento de sintomas, ao longo da vida.

Ainda em relação às categorias diagnósticas usuais, um dos seus objetivos seria facilitar a prescrição de tratamentos. No entanto, quando se faz um diagnóstico, frequentemente sintomas que não entram nos critérios acabam não sendo tratados ou, quando o são, o tratamento é feito através de uma adaptação individualizada de intervenções.

A ALTERNATIVA TRANSDIAGNÓSTICA

O modelo da Taxonomia Hierárquica da Psicopatologia (HiTOP, Hierarchic Taxonomy of Psychopatology) surgiu como um esforço de pesquisa para abordar esses problemas. Ele constrói síndromes psicopatológicas e seus componentes/subtipos com base na covariação observada de sintomas, agrupando sintomas relacionados e, assim, reduzindo a heterogeneidade. Também combina síndromes concomitantes em espectros, mapeando assim as comorbidades. Além disto, caracteriza estes fenômenos dimensionalmente, o que leva em conta problemas de limites e da instabilidade diagnóstica (Kotov et al., 2017; Kotov et al., 2021).

Na imagem do início do texto, aparecem as sobreposições de sintomas do grupo agressivo-impulsivo-reativo,  entre Intermittent Explosive Disorder (= IED, Transtorno explosivo intermitente), Conduct Disorder (= CD, Transtorno de conduta), Disruptive Mood Dysregulation Disorder (= DMDD, Transtorno Disruptivo da Desregulação do Humor) e (Hypo)manic Episode (= HE, Episódio (hipo)maníaco). Conforme comentado, acima, a presença de sintomas semelhantes em diagnósticos distintos é um dos problemas da nosologia categórica convencional, que a abordagem transdiagnóstica procura superar, isolando sintomas com base em evidências das neurociências, da psicologia e da psicossociologia.

Em princípio, o objetivo da psiquiatria transdiagnóstica é descobrir as categorias naturais que constituem a base para os sintomas psiquiátricos que configuram as queixas dos pacientes e as observações dos psiquiatras e psicólogos. Entretanto, muito do que se tem feito se restringe à confirmação de descobertas pré-existentes e à investigação de sintomas (e suas combinações) das classificações categoriais tradicionais (Fusar-Poli et al., 2019).

Outro aspecto importante é que a psiquiatria transdiagnóstica é uma linha de pesquisas em desenvolvimento, de modo que não há diretrizes suficientemente comprovadas - e aprovadas - para a utilização rotineira de suas descobertas, no tratamento psiquiátrico.


Imagem: Superposição de critérios para comportamento agressivo-impulsivo-reativo (AIR) By Eyoungstrom - Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=112285313

Referências bibliográficas

Dagleish J et al.   Transdiagnostic Approaches to Mental Health Problems    Journal of Consulting and Clinical Psychology 2020 Vol. 88, No. 3, 179–195 http://dx.doi.org/10.1037/ccp0000482 

Fusar-Poli P et al.   Transdiagnostic psychiatry: a systematic review   World Psychiatry. 2019 Jun;18(2):192-207. doi: 10.1002/wps.20631. PMID: 31059629 PMCID: PMC6502428 DOI: 10.1002/wps.20631

Kotov R et al. (2017). The Hierarchical Taxonomy of Psychopathology (HiTOP): A dimensional alternative to traditional nosologies. J  Abnormal Psychol, 126(4), 454–477  https://doi.org/10.1037/abn0000258

Kotov R et al.   The Hierarchical Taxonomy of Psychopathology (HiTOP): A Quantitative Nosology Based on Consensus of Evidence    Annual Review of Clinical Psychology, 2021 Vol. 17:83-108 (Volume publication date May 2021) https://doi.org/10.1146/annurev-clinpsy-081219-093304


terça-feira, 26 de agosto de 2025

VERDADE E MENTIRA EM PSICOLOGIA


VOCÊ CONFIA NAS PESQUISAS DE PSICOLOGIA?


1. Vinte e quatro estudantes universitários foram divididos em dois grupos : uma parte deles simulava guardas prisionais e a outra parte, prisioneiros.

Após algum tempo, os guardas, apesar de não terem sido orientados para tanto, começaram a apresentar espontaneamente comportamentos tão agressivos que o estudo teve de ser interrompido.

As conclusões deste estudo foram citadas em muitos livros de Psicologia.

FALHAS

Em entrevistas mais recentes com os participantes, estes relataram que os guardas tiveram instruções bastante completas sobre como maltratar os prisioneiros, por exemplo através de mantê-los em situação de tédio ou forçá-los a retirar espinhos de cobertores sujos que haviam sido jogados no mato.

2. Dois grupos de voluntários eram solicitados a ficar esperando para começar a resolver um quebra-cabeças, tendo ao lado uma vasilha com rabanetes e uma vasilha com cookies. Um dos grupos era orientado a só poder se servir dos rabanetes e o outro podia se servir dos cookies.

Na hora de resolver os quebra-cabeças, o grupo que pode se servir de cookies demorou muito mais tempo para desistir. Aparentemente, a necessidade de se controlar e NÃO consumir os cookies trouxe uma fadiga ao grupo que só podia comer os rabanetes, o que levou a uma teoria de que o havia sido "depletado" o ego das pessoas que precisavam exercer força de vontade e auto-controle para não comer os cookies.

Esta pesquisa (4) foi citada mais de três mil vezes em outros estudos e livros e em 2010 foi feita uma meta-análise* de 83 estudos e 198 experimentos sobre depleção do ego e que confirmou seus resultados.

FALHAS


Numa revisão do grande estudo de 2010, observou-se que ele incluía apenas resultados publicados e pesquisas que encontraram resultados negativos não haviam sido incluídas. E as pesquisas incluídas na meta-análise muitas vezes incluíam resultados que não podiam ser comparados uns aos outros: por exemplo, num dos estudos concluía que as pessoas com ego depletado dariam mais dinheiro a uma instituição de caridade e outro concluía que as pessoas com ego depletado ficariam menos tempo ajudando um estranho. Finalmente, quando se refez a análise estatística com técnicas mais modernas, não se observaram resultados significativos.

3) Crianças com 5 anos de idade eram orientadas a aguardar quinze minutos, tendo na frente um marshmallow. Se esperassem os 15 minutos, ganhariam este marshmallow e mais um segundo. Se comessem o marshmallow antes dos 15 minutos, não receberiam o segundo.

Reexaminadas após dez e vinte anos, as crianças que tinham conseguido esperar os quinze minutos, apresentavam menos problemas comportamentais e melhor desempenho nos testes para admissão em faculdades.

FALHAS

Todas as crianças testadas eram de pais de alto nivel sócio-cultural. A repetição desta pesquisa num grande grupo de crianças de quatro anos com mães que não tinham feito faculdade mostrou um ganho muito menor nos comportamentos sócio-emocionais, na adolescência e a correlação era extremamente fraca (0,1, numa escala onde o mínimo e 0 e o máximo é 1). Além disto, a maior parte dos ganhos se relacionava à capacidade de esperar pelo menos 20 segundos (ou seja, saber esperar vários minutos, como no estudo original, não apresentava vantagens sobre conseguir esperar apenas 20 segundos).
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*Nota: estudos de meta-análise são estudos que procuram levantar todas as pesquisas feitas sobre o assunto em questão, que são sistematicamente analisadas e, em seguida, faz-se também uma análise estatística com o objetivo de se obter uma conclusão geral.




REFERÊNCIAS

(1) Wikipedia Stanford prison experiment https://en.wikipedia.org/wiki/Stanford_prison_experiment , acessado em 20/07/2018

(2) Blum B The lifespan of a lie Medium 7 de junho de 2018 https://medium.com/s/trustissues/the-lifespan-of-a-lie-d869212b1f62 , acessado em 20/07/2018

(3) Engber D Everything is crumbling Slate 6 de março de 2016 http://www.slate.com/articles/health_and_science/cover_story/2016/03/ego_depletion_an_influential_theory_in_psychology_may_have_just_been_debunked.html , acessado em 20/07/2018

(4) Baumeister RF, Bratslavsky, Muraven M, Tice TM Ego-depletion: is the active self a limited resource? Journal of Personality and Social Psychology (1998) v. 74, p. 1252-65 https://faculty.washington.edu/jdb/345/345%20Articles/Baumeister%20et%20al.%20(1998).pdf , acessado em 20/07/2018
(5) Resnik B The “marshmallow test” said patience was a key to success. A new replication tells us s’more.   Vox  6 de junho de 2018   https://www.vox.com/science-and-health/2018/6/6/17413000/marshmallow-test-replication-mischel-psychology, acessado em 20/07/2018 

(6) Watts TW, Duncan GJ, Quan H    Revisiting the Marshmallow Test: A Conceptual Replication Investigating Links Between Early Delay of Gratification and Later Outcomes  Psychological  Science 2018   v. 29, p; 1159-77   http://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1177/0956797618761661 , acessado em 20/07/2018

(7) Carter EC; McCullough ME   Publication bias and the limited strength model of self-control - has the evidence for ego-depletion been overestimated?    Frontiers of Psychology  July 2014   v. 5, artigo 823   http://www.psy.miami.edu/ehblab/PubBiasSelfControlEgo.pdf , acessado em 20/07/2018


Ilustração: TORTURA By CGP Grey - 2006-08-20 - Road Trip - Day 29 - United States - Arizona - The Thing - Torture - Woman 4888999825, CC BY 2.0,

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O QUE É AUTISMO - TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA? (PRIMEIRA PARTE)




Segundo revisões da história do conceito de autismo, a primeira pesquisadora a descrever crianças com características de autismo foi a psiquiatra soviética Grunya E. Sucharewa, em 1926; porém, ela chamou os quadros destas crianças de "psicopatia esquizoide". O termo "autismo" já tinha sido mencionado, em 1911, pelo psiquiatra suíço E. Bleuler, mas noutro contexto - para descrever o mundo isolado e ensimesmado em que viviam os portadores de esquizofrenia. Porém, a história do conceito como o conhecemos hoje se inicia com L. Kanner, que publicou, em 1943, os casos de 11 crianças. A seguir, um breve resumo, porém é aconselhável ler o artigo original, onde aparecem muito mais detalhes.

Caso 1: examinado inicialmente aos 5 anos de idade, tinha história de seletividade alimentar, restrição de perguntas a alguns assuntos específicos (e formulação das perguntas numa única palavra), facilidade em decorar o alfabeto, nomes e faces e mesmo textos inteiros. Indiferença em relação aos pais e parentes. Desinteresse por coisas que normalmente despertam entusiasmo nas crianças como, por exemplo, alguém vestido de Papai Noel. Não demonstrava afeto quando acarinhado, não prestava atenção se alguém entrava ou saía, não demonstrava alegria em ver os pais ou um amiguinho e nem tomava a iniciativa para brincar com alguém. Parecia mais feliz quando estava sozinho e raramente ia até alguém que o chamasse. Aos dois anos, muito interessado em brinquedos com blocos de girar, frigideiras e outros objetos redondos. Adquiriu o hábito de balançar a cabeça de um lado para o outro e parecia estar sempre pensativo. Repetição das mesmas palavras, frases, disposição de objetos. Entendimento apenas literal dos mandos. Dificuldades no uso correto no uso de pronomes pessoais.

Caso 2: Inicialmente examinado aos 6 anos, tinha histórico de ser autossuficiente, não participar de jogos interativos, muito medo de objetos mecânicos; no começo da vida não se interessava por ninguém, depois passou a aceitar um pouco melhor a presença de pessoas, mas no geral as percebia como interferência em suas atividades. Aprendeu muitas canções já aos dois e meio anos de idade. Dificuldade em pedir as coisas e dificuldade em não recebê-las quando as quer. Dificuldades no uso correto de pronomes pessoais. Quando mãe ía pegá-lo em seus braços, nunca assumia postura de expectativa. Ou evitava outras crianças ou se metia no meio delas de forma agressiva.

Caso 3. Inicialmente, foi considerado surdo, por não falar ou responder perguntas. Levado para internação, concluíram que provavelmente ouvia, porque obedecia a ordens simples", como "sente-se" ou "deite-se". Parecia inteligente, demonstrando curiosidade relacionada aos instrumentos usados para examiná-lo. Mas, não prestava atenção a conversas ao seu redor e fazia ruídos, mas não falava palavras inteligíveis. Pela descrição da mãe, chegou a imitar os sons da fala mas, depois, parou. No consultório do psiquiatra, brincava com os brinquedos, mas não prestava atenção às pessoas, no recinto. Emitia ruídos ininteligíveis. Num retorno, aos 4 anos e 11 meses de idade, ficou persistentemente ligando e desligando as luzes. Não dizia à mãe, se queria algo, mas se mostrava furioso, até que ela adivinhasse o que desejava.

Caso 4. Foi levado à clínica aos 5 anos de idade, para avaliação psicométrica, pois se achava que tinha deficiência intelectual - havia estado num jardim de infância particular, onde sua fala incoerente, incapacidade de adaptar-se e acessos de raiva levaram a esta suspeita. Aos 3 anos, havia decorado 37 canções. No primeiro ano de vida apresentava muitos vômitos, o que levou a várias trocas nas fórmulas com que o alimentavam. Estava sempre ocupado com algo, com vivacidade, mas quando se falava com ele, continuava em sua atividade. Kanner observa que não parecia desobediente, porém extremamente distante. Parecia muito satisfeito com suas atividades, a não ser que alguém interferisse persistentemente com o que estava fazendo. Neste caso, primeiro tentava se desviar da pessoa e, se não conseguissem tinha acessos de raiva. Manuseava adequadamente vários objetos e passou também a falar frases soltas, com um bom vocabulário, mas que não aparentavam que pretendesse comunicar-se. Repetia frases ditas por outras pessoas e decorava trechos com muita facilidade. Falava de si sempre na segunda pessoa. Comportava-se como se as pessoas não existissem e nunca olhava para suas faces. Frequentemente andava em círculos, masturbava-se com frequência e apresentava vários comportamentos repetitivos.

Caso 5.  Foi levada à clínica aos 8 anos e 4 meses. Apresentava vocabulário normal aos 2 anos de idade, mas sempre com dificuldades para com as palavras estruturar sentenças; soletrava, escrevia e lia bem, porém mantinha a dificuldade de expressão oral. Hábitos rígidos e repetidos, repetia frases, usava repetidamente determinados objetos. Falava de si na segunda pessoa e se referia à mãe com "eu", Desatenta ao ponto de parecer que não ouvia. No exame psiquiátrico não mostrava nenhuma vontade de interagir nem contato afetivo. Picada com uma agulha, disse "machuca", mas a palavra não era dirigida a ninguém.  Brincava com a própria mão como se fosse um brinquedo. Sua manipulação de objetos era repetitiva. Seus desenhos, estereotipados e sem imaginação. Interrompia conversas dos outros com palavras ou frases estereotipadas.

Caso 6. Foi levada à clínica aos 11 anos de idade. Morava numa instituição para deficientes intelectuais desde os 5 anos de idade, mas se percebeu que não tinha deficiência intelectual. Não prestava atenção no que lhe falavam, mas parecia entender tudo o que esperavam dela. Não interagia com as pessoas, mas se cuidava, montava quebra-cabeças, nos quais persistia obsessivamente até completar a figura (o que conseguia, mesma que  as peças de dois quebra-cabeças diferentes fossem misturadas). Testada, apresentou um Q.I. de 94.  Respondia as perguntas sem olhar para a pessoa, olhando para o  vazio. Quando as crianças se juntaram em torno do piano, ela pareceu não perceber; não prestava atenção à música, mergulhada em seu mundo à parte. Quando as crianças se retiraram, pareceu não perceber e nem mudou de posição.

Caso 7. Foi encaminhado à clínica aos 3 anos e 2 meses. Sua mãe o descrevia como sempre lento e quieto.  Achou-se, por um tempo, que fosse surdo, porque não apresentava nenhuma mudança de expressão quando se falava com ele e nem tentava falar. Aceitava líquidos somente num recipiente todo de vidro e, na clínica, chegou a ficar 3 dias sem aceitar líquidos, porque foram oferecidos num recipiente metálico. Tinha muitos medos, incluindo água corrente e queimadores de gás. Incomodava-se com quaisquer mudanças, ficando temperamental e chegando a chorar. Gostava de puxar persianas para cima e para baixo, abrir e fechar portas, rasgar caixas de papelão em pequenos pedaços e ficar horas se divertindo com eles. Entrou no consultório sem olhar para as pessoas e  logo se dirigiu a um tabuleiro de Seguin, colocando as formas em seus lugares, corretamente. Quando se retirou o tabuleiro, ficou perturbado, imediatamente percebendo sua ausência mas, quando o colocaram de volta, não se importou mais com ele. Quando se aquietou, ficou pulando, com uma expressão extática. Não respondia, quando chamado ou quando se dirigia uma palavra a ele. Nunca sorria. Por vezes emitia sons desarticulados, cantarolando. Frequentemente levava objetos aos lábios.

Caso 8. Levado à clínica aos 3 1/2 anos, a mãe descrevia que, gradualmente, desenvolveu interesses rígidos e só se dedicava a eles. falava deles. Se não pudesse ter acesso a eles, mostrava-se inquieto. Também demonstrava um interesse muito maior por objetos. Demorou para falar, nunca fazia perguntas com a entonação característica, repetia muito frases - dificilmente falava uma sentença uma única vez, chegando a fazer 50 repetições. Só raramente fala de suas experiências. Gosta de brincar sozinho, montando coisas como, por exemplo, montando um carrinho com caixas. Não gostava que alguém se aproximasse. Punha várias coisas na boca e chegaram a ser encontrados pedregulhos em suas fezes e, uma vez, aspirou algodão, requerendo traqueotomia. Entrando no consultório, logo viu um trem de brinquedo, pegou-o e ficou conectando e desconectando repetidamente os vagões, dizendo "mais trem, mais trem, mais trem". Também repetidamente contava as janelas dos vagões, em voz alta. Levado a uma sala sem trens para fazer o teste de Binet, foi difícil convencê-lo a fazer e, quando o completou, pareceu ao psiquiatra que o fez de maneira a se livrar o mais rápido possível. Seu QI foi de 142. Numa descrição enviada pela mãe quando tinha cinco anos, foi descrito como "lobo solitário", permanecendo sozinho para brincar e só se dirigindo a um adulto quando queria ouvir uma história. Lia histórias simples para si mesmo. Tinha muitos medos de ferimentos e se assustava muito se alguém, por acidente, lhe cobrisse o rosto. Foi levado novamente ao psiquiatra aos 11 anos e, durante a entrevista, manteve-se muito sério, porém com bastante pressão do discurso, perguntando obsessivamente sobre janelas, sombras, quartos escuros. Por vezes, respondia às perguntas em forma de barganha: "Você responde uma pergunta minha e eu respondo uma pergunta sua." As definições que dava das coisas eram sempre descrições muito específicas como, por exemplo, üm balão é feito de borracha e contém ar e às vezes contém gás e às vezes pode subir no ar e às vezes podem ser segurados; quando se faz um furo neles, estouram e se as pessoas os apertam, estouram. Está certo?"

Caso 9. Levado à clínica com 4 e meio anos, tinha um histórico de, com um ano e meio de idade, conseguir distinguir 17 sinfonias. Passou a interessar-se também pela manipulação repetitiva de objetos, como, por exemplo, rodopiar cilindros ou refletir a luz em vários espelhos. Parecia sempre distanciado das pessoas à sua volta, falava de si na segunda pessoa. Quando alguém jogou no chão um almanaque que estava lendo e pisou em cima, ele tentou remover o pé da pessoa como se fosse um objeto e não parte de uma pessoa. Nas conversas, somente reproduzia o que havia escutado, jamais emitia algo que fosse originalmente seu. Quando num grupo de pessoas, não olha para elas. Na escola se mantém sempre afastado das outras crianças. Se houvesse uma atividade musical, postava-se na frente de todos e começava a cantar. Nunca inicia uma conversação. Quando entrou no consultório do psiquiatra, não olhou para ninguém que estava lá. Tudo o que fazia era muito repetitivo.

Caso 10.  Avaliado aos 2 anos e 4 meses de idade. Rolava de um lado para o outro, antes de adormecer. Se não sabem o que quer, fica berrando. Entrando no consultório, ficou andando de um lado para o outro, sem rumo. Não estabelecia nenhum contato entre dois objetos, a não ser quando era para rabiscar. Não respondia à maioria dos comandos simples. Ao final do quarto ano de vida, seu vocabulário melhorou muito. Seu contato afetivo era pouco e somente com poucas pessoas. Usava o pronome da segunda pessoa para referir-se a si mesmo. Sempre empurrava para o lado o primeiro pedaço de seus alimentos. Sua rotina tinha de ser rígida, qualquer mudança o deixava em pânico. Possuía um vocabulário excelente, mas só repetia as sentenças ditas por outros, não produzindo nada original. Tinha excelente memória e conhecia de cor rezas em várias línguas e poemas. Aos quatro anos e meio, passou a usar os pronomes mais adequadamente. Precisava de um ambiente muito estável e, nas avaliações, conseguia isto mantendo porta e janela fechadas. Se sua mãe abria, primeiramente ele logo as fechava e, se abrisse de novo, irrompia em lágrimas. Ficava muito incomodado se visse algo incompleto. Uma boneca de duas estava sem chapéu e ele o ficou procurando pela sala inteira. Quando trouxeram e colocaram nela o chapéu, imediatamente perdeu o interesse por ela. Aos cinco anos e meio, passou a ter um bom domínio dos pronomes.

Caso 11. Levada à clínica aos 7 anos e 4 meses de idade, tinha história de não conseguir lidar com abstrações: não entendi as brincadeiras das outras crianças, não queria ouvir histórias, ficava andando e falando sozinha. Gostava muito de animais e, por vezes, os imitava. Com 1 ano de idade, falava 4 palavras, mas não houve progresso posterior da fala e chegaram a achar que fosse surda. Por causa de suas dificuldades, também se pensou numa deficiência intelectual porém, os médicos que a viam, achavam que sua expressão facial era de uma pessoa inteligente. Aprendeu a falar aos 5 anos, mas suas frases não se relacionavam à situação do momento ou se relacionavam a ela de uma forma metafórica. Seu comportamento também era diferente do das outras crianças: quando elas estavam sendo ensinadas a cuidar de flores, bebeu a água e comeu as plantas. Tinha um vocabulário muito rico, aprendendo especialmente bem as classificações dos animais. Não usava os pronomes corretamente, mas era correta nos tempos e nos plurais. Dificuldades para entender o significado de números. Muito medo de barulho, tinha tanto medo do aspirador de pós que se afastava até do quarto onde ste ficava guardado. Se fosse ligado, tampava as orelhas com as mãos e corria para a garagem. Examinada por uma psicóloga aos 7 anos, mantinha uma relação distante e, mesmo quando restringida fisicamente, afastava o objeto ou a parte do corpo que a restringia, mas em nenhum momento pedia para que a soltassem ou pedia alguma ajuda. Seu discurso continuava se restringindo a repetir frases, raramente emitindo algo original. Decorava o nome das crianças com quem convivia, mas não se relacionava com elas. Levada para o playground, demonstrou medo e correu para seu quarto. Conseguia ficar longos períodos brincando sozinha com blocos de montar, desenhar ou ficar olhando gravuras.

ALGUNS DOS COMENTÁRIOS RELEVANTES DE KANNER SOBRE SEUS CASOS

A característica mais evidente, fundamental e característica do transtorno seria uma incapacidade das crianças, desde o início de suas vidas, de se relacionarem do modo habitual com pessoas e situações.

Esta dificuldade de interação com pessoas se caracteriza por dificuldades graves na comunicação,  incluindo severas limitações da linguagem (que podem, lentamente, melhorar, com a passagem do tempo) e a necessidade de uma regularidade ininterrupta no ambiente, de modo que uma série de estímulos externos (sons ou interferência nas atividades) são vivenciados com extremo desconforto e, como consequência, segundo Kanner, na criança predominariam comportamentos e exigências repetitivos.

Kanner comenta da semelhança com algumas características da esquizofrenia, porém acrescenta que, ao contrário desta, que sempre se inicia após um período de desenvolvimento normal, o desenvolvimento é anormal desde o início, sendo algumas características perceptíveis, eventualmente, já com poucos meses de idade - por exemplo, a ausência de reação normal, quando a mãe vai pegar a criança em seus braços. 

Kanner tece alguns comentários sobre o nível superior de inteligência prevalente nas famílias e uma falta de "calor" humano. Mas, ao contrário de autores mais tardios (desmentidos, posteriormente), atribui a um distúrbio inato a origem última do quadro de autismo.

Assim, Kanner estabeleceu as bases teóricas e diagnósticas do que hoje se denomina transtorno do espectro autista.

Referências bibliográficas

Associação Psiquiátrica Americana. (2022). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (5ª ed., texto revisado), 2022  Apud Instituto Inclusão Brasil https://institutoinclusaobrasil.com.br/dsm-5-tr-e-cid-11-diagnostico-de-transtorno-do-espectro-autista/ 

Autism Aspergers Advocacy Australia     Autism Spectrum Disorder (ASD) in the DSM-5-TR  https://a4.org.au/dsm5-asd, acessado em 23/02/2025

Bleuler E  (1911) Dementia praecox oder Gruppe der Schizophrenien; Leipzig, Wien: Franz Deuticke (Handbuch der Psychiatrie, hg. von G. Aschaffenburg, B: Spezieller Teil, 4. Abteilung, 1. Hälfte). 

Kanner L   Autistic Disturbances of Affective Contact.   Nervous Child: Journal of Psychopathology, Psychotherapy, Mental Hygiene, and Guidance of the Child 2 (1943): 217–50. 

Pozzi CM, Riesgo R d S, Assumpção Jr F A   Revisiting the history of autism before Kanner and Asperger: a tribute to Grunya Sukhareva  Arq Neuropsiquiatr.  2024 Aug;82(8):1-3. doi: 10.1055/s-0044-1788269. Epub 2024 Aug 8.

Sucharewa G E (1926) Die schizoiden Psychopathien im Kindesalter 

http://www.th-hoffmann.eu/archiv/sucharewa/sucharewa.1926.pdf , consultado em 25/08/2025


Imagem: Autistic Mind  https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Autistic_Mind_5.png#file