domingo, 13 de agosto de 2023

ASPERGER E O AUTISMO


Em seu livro Crianças de Asperger (1), a historiadora Edith Sheffer defende a tese de que classificar como autistas crianças cuja principal dificuldade reside em suas deficiências de comunicação social se insere no contexto ideológico do nazismo.

Em 1943, o psiquiatra estadunidense Kanner (2) publicou um artigo que, pela primeira vez, conceituava o autismo como um transtorno específico. Antes dele, outros autores como, por exemplo, em 1926, a psiquiatra soviética G. E. Sucharewa (3) já haviam publicado casos semelhantes, mas até Kanner o autismo era considerado apenas um sintoma. As crianças descritas por Kanner tinham, além das deficiências de comunicação social, graus diversos de deficiência intelectual. Em 1944, o psiquiatra austríaco Asperger, trabalhando na Viena nazista, publicou também um artigo (4) (provavelmente sem ter conhecimento do artigo de Kanner), no qual descrevia casos semelhantes àqueles do psiquiatra americano, porém que não apresentavam, necessariamente, deficiências intelectuais: ao contrário, poderiam ter desempenho intelectual até acima da média. O que caracterizava as crianças de Asperger, eram suas dificuldades de comunicação (e inserção) social. Asperger considerava que seus autistas tinham uma deficiência de Gemüt, uma palavra alemã com diversos significados mas que, no caso delas, se referia a uma incapacidade emocional de se encaixarem devidamente na sociedade "enquanto organismo". Esta ideia da sociedade como um organismo biológico era essencial na ideologia nazista (5), segundo a qual indivíduos e raças inferiores representariam tumores dentro deste organismo, que deveriam ser extirpados. No entanto, Asperger expressa na sua publicação que crianças autistas poderiam ser educadas com base em suas capacidades intelectuais e, com isto, tornarem-se socialmente úteis. Esta avaliação positiva era essencial para salvar a vida delas, numa época em que crianças consideradas não educáveis frequentemente poderiam ser assassinadas em locais como o complexo psiquiátrico Steinhof, na clínica Spiegelgrund, para onde Asperger também encaminhava pacientes. E hoje em dia se acredita que seria impossível Asperger não saber que no Pavilhão 15 de Steinhof (foto acima), crianças eram mortas com injeções ou deixadas para morrerem de doenças que contraíam ao serem propositalmente subnutridas e presas ao leito. Além do fato de a Associação Psiquiátrica Americana ter eliminado nomenclaturas diversas para designar formas distintas de autismo, englobando-as com o nome de Transtornos do Espectro Autista (6), a participação (mesmo que indireta) de Asperger no programa de eutanásia nazista constitui um dos motivos pelos quais se desaconselha, atualmente, o uso de "síndrome de Asperger" para denominar o transtorno de pessoas com dificuldades de comunicação social, porém sem deficiência intelectual - considera-se que uma pessoa envolvida no assassinato de crianças não deve ser homenageada.

Referências

1. Sheffer E (2019) Crianças de Asperger - as origens do autismo na Viena Nazista, acessado em 13/08/2023

2. Kanner L (1943)  Autistic disturbances of affective contact, acessado em 13/08/2023

3. Sucharewa G E (1926) Die schizoiden Psychopathien im Kindesalter, acessado em 13/08/2023

4. Asperger H (1944) Die "autistischen Psychopathen" im Kindesalter, acessado em 13/08/2023

5. Bialas W (2014)  Moralische Ordnungen des Nationalsozialismus, acessado em 13/08/2023

6. Associação Psiquiátrica Americana (2023) Associação Psiquiátrica Americana (APA) Manual diagnóstico e estatístico DSM-5-TR, acessado em 13/08/2023


Imagem: Steinhof, Pavillion 15

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

SEUS PENSAMENTOS INCOMODAM E VOCÊ NÃO CONSEGUE SE LIVRAR DELES?


 


Em PSIQUIATRIA, as pessoas frequentemente se queixam de pensamentos incômodos ou negativos que "não querem" sair de suas cabeças. Pesquisa publicada na década de 90 pediu a pessoas que imaginassem um URSO BRANCO e, em seguida, deveriam pensar em qualquer coisa, MENOS no urso branco. Porém, cada vez que aparecesse o URSO BRANCO na cabeça delas, deveriam levantar um dedo. A maioria das pessoas, mesmo tentando pensar em tudo menos no URSO BRANCO, algumas vezes levantou um dedo. Terminado o exercício, o URSO BRANCO aparecia ainda mais vezes do que durante o exercício. Tentar rejeitar pensamentos frequentemente não funciona e pode até aumentar a frequência deles. Se os pensamentos forem emocionalmente carregados, como na depressão e no TOC, a dificuldade pode ser ainda maior. Pensamentos negativos tendem a trazer emoções negativas. E emoções negativas tendem a trazer pensamentos negativos, num círculo vicioso. Assim, foram desenvolvidas técnicas de psicoterapia que enfraquecem os pensamentos negativos SEM tentar eliminá-los da mente. Um destes conjuntos de técnicas é a ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso). Através de metáforas, exercícios de mindfulness e o comprometimento com os verdadeiros valores de cada pessoa, é possível aliviar sintomas de depressão, ansiedade, pânico, fobias e TOC, entre outros.


 Imagem: U3176522, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons

domingo, 9 de janeiro de 2022

REMÉDIOS OU PSICOTERAPIA, QUAL FUNCIONA MELHOR?


Há muitas evidências de que episódios de depressão (não bipolar) de grau leve a moderado e vários transtornos de ansiedade, o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e o transtorno de pânico podem melhorar muito com alguns tipos de psicoterapia, como a cognitivo-comportamental, a ativsação comportamental e a ACT (terapia de aceitação e compromisso). Tanto quanto com remédios. Isto porque estes transtornos decorrem tanto de uma predisposição biológica do cérebro quanto de padrões disfuncionais de pensamento e comportamento. Nas psicoterapias, a pessoa aprende a lidar com situações, emoções e pensamentos de modo a reduzir o estresse e o sofrimento. As medicações, por sua vez, atuam diretamente no funcionamento dos neurônios, compensando a predisposição biológica. Assim, em alguns casos, após avaliação psiquiátrica, é válido que se use somente psicoterapia e, em outros, compensa mais usar medicações. Na prática, grande parte dos pacientes acaba se beneficiando quando ambos os tratamentos são instituídos. 

Ilustração: By U3065856 - Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=29372162

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

EFEITOS COLATERAIS DE MEDICAÇÕES PSIQUIÁTRICAS


É muito frequente que as pessoas se queixem de algum sintoma, quando tomam uma medicação. Algumas das queixas são claramente efeito colateral da medicação que usam. Outros, são duvidosos e alguns sintomas NÃO SÃO dos remédios. Explicação: cada remédio tem um mecanismo de ação, no organismo e, assim, os benefícios e efeitos colaterais que pode causar são bastante bem definidos. Por exemplo, remédios como o escitalopram (fórmula estrutural na ilustração) podem frequentemente causar dificuldade de orgasmo, porém é mais raro que causem tremores e, certamente, não levam a desmaios. Isto é só um exemplo. A importância disto é porque as pessoas tendem a achar que, quando têm algum sintoma E estão tomando um remédio, necessariamente o que sentem é causado pelo remédio. E, muitas vezes, isto leva a interrupções do tratamento. Assim, quando sentir algo e achar que é do remédio que está tomando, pergunte ao seu/sua médico(a), antes de parar o remédio. Ele(a) certamente saberá esclarecer e orientar você quanto à melhor conduta. Por sinal, a maior parte dos efeitos colaterais é desagradável, mas NÃO perigosa e grande parte deles melhora ou desaparece em poucas semanas, após o início do uso ou aumento da dosagem.

terça-feira, 7 de julho de 2020

ENSINANDO UMA ADOLESCENTE AUTISTA A ANDAR NA RUA COM SEGURANÇA



Pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) podem ter dificuldades com conceitos abstratos. Assim, a ideia de "perigo" pode ser difícil de ensinar, em alguns casos. No exemplo citado no livro How to live with autism and Asperger syndrome (título, em português: Convivendo com autismo e síndrome de Asperger - estratégias práticas para pais e profissionais), pais de uma adolescente autista de 15 anos a ensinam a evitar o perigo do trânsito, na rua, através de uma estratégia em três estágios:
Quando ela se aproximava da borda da calçada, os pais diziam:
- Pare, não saia da calçada! É perigoso!
Num segundo estágio, passado algum tempo, os pais diziam somente:
- Pare!
E, depois, perguntavam:
- O que vou dizer agora?
Inicialmente, a criança dizia:
- Não sei.
Neste caso, os pais voltavam ao estágio anterior e falavam:
- Não saia da calçada! É perigoso!
Entretanto, após algumas semanas, a menina passou a dizer, espontaneamente:
-Não saia da calçada! É perigoso!
E os pais elogiavam:
- Muito bem!
No estágio seguinte, os pais não diziam nada, apenas paravam do lado dela e a olhavam nos olhos. Das primeiras vezes, ela disse:
- O quê?
Aí, os pais voltavam para o estágio anterior e diziam:
-O que vamos dizer, agora?
Aí, ela respondia que eles diriam para não sair da calçada, pois era perigoso - e eles a elogiavam.



Referência: Convivendo com autismo e síndrome de Asperger - estratégias práticas para pais e profissionais, Chris Williams e Barry Wright   https://www.amazon.com.br/Convivendo-com-Autismo-S%C3%ADndrome-Asperger/dp/8576800381 (link acessado em 07/07/2020)

Imagem: By MissLunaRose12 - Own work, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=81328701


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

TERAPIA COMPORTAMENTAL, COGNITIVO-COMPORTAMENTAL E TERAPIA DE ACEITAÇÃO E COMPROMISSO (ACT)- SEGUNDA PARTE: TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL OU "TCC"



Na TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL, parte-se do princípio de que certos estímulos do ambiente (nisto se inclui não apenas o ambiente natural, porém pessoas, doenças, mudanças, viagens, provas acadêmicas - e tudo o que pode influenciar o comportamento do cliente, de alguma forma) desencadeiam pensamentos, muitas vezes automáticos e que passam despercebidos. Estes pensamentos, por sua vez, desencadeiam sentimentos e estes sentimentos são os que fazem a pessoa sofrer. Por trás destes pensamentos, há CRENÇAS centrais ou nucleares. Por exemplo, o namorado de uma pessoa faz uma crítica, que desencadeia um pensamento tipo "ele não gosta de mim", que faz a pessoa se sentir angustiada. Por trás deste pensamento, por sua vez, pode existir uma CRENÇA CENTRAL ou NUCLEAR do(a) cliente, de que tem alguma característica negativa (apenas como exemplo, que é feia, ou "chata" ou "burra") e que, por isto, ninguém vai amá-la. Na terapia cognitivo-comportamental se ajuda a pessoa a desenvolver um diálogo consigo mesma, de modo que ela conteste seus pensamentos automáticos ou seja, não os tome como verdade absoluta. Por exemplo, cada vez que aparecer um pensamento de "ele não gosta de mim" apenas porque foi criticada, ela se pergunta: "quais são as evidências de que, por me criticar, realmente não gosta de mim?" Muitas vezes, a pessoa percebe que tem uma tendência de tirar conclusões negativas com excessiva frequência e, através deste diálogo consigo mesma, aprende a distinguir, das situações que realmente têm uma conotação negativa, aquelas nas quais estava tirando conclusões exageradas e injustificadamente pessimistas. Submetendo seus pensamentos negativos a estas análises, é possível diminuir o sofrimento e, também, descobrir, aos poucos, quais as CRENÇAS nucleares por trás de seus pensamentos. A terapia não se atém aos pensamentos, apenas, mas, como na terapia comportamental, procura planejar com a pessoa soluções viáveis para seus problemas. O terapeuta usa preferencialmente a capacidade de raciocínio do(a) próprio(a) cliente, desenvolvendo a capacidade de a pessoa, aos poucos, resolver seus problemas sozinha e se tornar progressivamente mais independente. Assim, menos do que afirmações, o que o terapeuta mais faz são perguntas que ajudem o(a) cliente a entender melhor o que ocorre e tirar suas próprias conclusões e sugerir soluções.

Na figura do início da postagem, alguns dos vieses cognitivos comuns que levam ao sofrimento: ABSTRAÇÃO SELETIVA (selective abstraction) - tirar conclusões com base em apenas um dos muitos elementos de uma situação (como no exemplo da pessoa que conclui que o namorado não gosta dela apenas porque a criticou, uma vez). MINIMIZAÇÃO (minimisation): desvalorizar a importância de um pensamento, emoção ou evento positivo. PERSONALIZAÇÃO (personalisation) atribuir-se a responsabilidade por eventos que não estão sob o controle de uma pessoa. INFERÊNCIA ARBITRÁRIA (arbitrary inference) tirar conclusões quando há pouca ou nenhuma evidência. MAGNIFICAÇÃO (magnification) dar importância desproporcionalmente grande a eventos. SUPERGENERALIZAÇÃO (overgeneralisation) tirar grandes conclusões com base em eventos isolados.


Imagem (atribuição): LoudLizard [CC BY-SA (https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0)]